A história por trás da selfie de gorilas que viralizou nas redes sociais

A história por trás da selfie de gorilas que viralizou nas redes sociais

Ndakazi e Ndeze eram ainda filhotes quando perderam as mães, mortas por caçadores no Congo, em 2007. Com poucos meses de vidas, as duas gorilas foram levadas para o orfanato Senkwekwe, no Parque Nacional de Virunga.

Desde então, foram criadas pelos guardas do parque, que se tornaram praticamente “os pais” dos animais. O convívio diário faz com que as gorilas imitem o que eles fazem. E foi daí que surgiu a selfie que abre este post e viralizou nas redes sociais nas últimas semanas, com mais de 30 mil curtidas somente no post de Mathieu Shamavu, que aparece em primeiro plano.

O guarda escreveu apenas “Mais um dia no escritório”. Mas a pose inusitada de Ndeze e Nadakazi bastou para conquistar os internautas. Muitos, entretanto, duvidaram da veracidade da foto.

A administração do Parque Nacional de Virunga veio a público então, em sua página no Facebook, esclarecer que sim, a imagem era real.

Essas meninas gorilas são sempre atrevidas, então essa foi a foto perfeita de suas verdadeiras personalidades! Além disso, não é nenhuma surpresa ver essas garotas em seus dois pés – a maioria dos primatas fica confortável andando na vertical (bipedalismo) por curtos períodos de tempo…

Queremos enfatizar que esses gorilas estão em um santuário fechado para órfãos aos quais eles viveram desde a infância. Os guardas em Senkwekwe tomam muito cuidado para não colocar em risco a saúde dos gorilas. Estas são circunstâncias excepcionais em que a foto foi tirada. Nunca é permitido abordar um gorila em estado selvagem”.

Santuário da vida selvagem

O trabalho de proteção e conservação realizado no Parque Nacional de Virunga é maravilhoso. Ele é um santuário da vida selvagem. E as pessoas que trabalham ali, principalmente os guardas florestais, vivem sob constante ameaças. Em abril do ano passado, noticiamos aqui no Conexão Planeta, a morte de patrulheiros em uma emboscada.

Em 20 anos, mais de 170 desses profissionais foram mortos por rebeldes, milícias, caçadores e pela indústria do carvão nessa reserva, onde estão os gorilas da montanha mais raros, em perigo de extinção.

O Virunga é o lar de cerca de mil gorilas da montanha

Como contou a jornalista Mônica Nunes na reportagem acima, entre 1997 e 2003, ocorreu uma guerra civil no país que causou a morte de 5 milhões de pessoas e registrou significativa perda de vida selvagem no Virunga.

O parque é mais antigo da África, fundado em 1925 por autoridades coloniais belgas. Quando Mobutu Sese Seko assumiu o poder do Congo, em 1960, houve proteção ao santuário. Mas, após 31 anos de governo, o presidente caiu e, com ele, a população de gorilas. Na época, os registros indicavam apenas 300 indivíduos.

Em 2007, uma parceria com a Fundação Howard G. Buffet, e o apoio de doadores privados, a União Europeia e o serviço de vida selvagem do Congo, transformou a situação. Merode, que era aristocrata belga, assumiu a direção do parque e começou a fazer mudanças que incentivaram o treinamento de guardas florestais. Tudo porque, a partir dessa época, eles passaram a receber salário mensal de US$ 250, que, na região, é considerado um valor considerável. E a economia voltou a dar ares de recuperação, inclusive para a adoção de microempréstimos e projetos de energia hidrelétrica.

Em Virunga, a população atual é de 1 mil gorilas. Outros animais – como os elefantes da floresta – também têm registrado aumentos significativos, e o turismo continua promissor. Infelizmente, os assassinatos dos patrulheiros afastam os visitantes.

Parte da equipe de patrulheiros do parque

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Fotos: Ranger Mathieu Shamavu/reprodução Facebook/divulgação Virunga National Park

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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