A história dos produtos influencia seu consumo?

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Uma das coisas que mais sinto falta como consumidora é conseguir rastrear a origem dos produtos. Saber a história por trás deles. Essa rastreabilidade é importante não só para que sejamos consumidores mais conscientes, entendendo o impacto socioambiental que cada produto tem, como também para, de fato, conhecer as trajetórias das pessoas envolvidas no processo, das matérias primas e do próprio processo em si.

Não acho que o consumidor vai mudar o mundo sozinho, mas é claro que ele contribui. E o primeiro passo pra que se tenha um consumo mais consciente é entender esse quadro que, no Brasil, ainda fica nublado, que raramente se mostra, algumas vezes até se insinua, mas não aparece por inteiro: a história por trás dos produtos.

Outro dia escrevi aqui sobre a Vert, uma marca de tênis cujo processo de fabricação é bem transparente. Pra mim, é o modelo de como as empresas deveriam mostrar essa história. Clara, direta, sem pretender ser perfeita – ao contrário: o site da Vert tem até uma área chamada Limites, onde explicita o que ainda foge ao conceito que a marca quer para seus tênis e a caminhada para melhorar isso.

Hoje, trago a história de uma empresa de cosméticos inglesa, que chegou ao Brasil em 2014 e já estabeleceu laços com quebradeiras de babaçu no Maranhão, pequenos agricultores de soja orgânica no Paraná e uma conhecida empresa produtora de álcool orgânico no estado de São Paulo.

Fundada pela inglesa Anita Roddick ainda na década de 1970 – ela era ativista dos direitos humanos e dos animais e acreditava no desenvolvimento sustentável; morreu de câncer em 2007), a The Body Shop (TBS) foi uma das primeiras empresas de cosméticos ecofriendly do mundo. Mas mais do que isso, a priorizar o comércio justo, buscando estabelecer como fornecedores de suas matérias primas comunidades em diversas partes do mundo.

As pesquisas que fiz durante o processo de apuração para este post e algumas entrevistas me trouxeram muitas informações positivas. Entre elas, a certificação fair trade, que é o primeiro aspecto que me interessa quando vou atrás de informações sobre produtos. A segunda é ser ecofriendly. Isso significa não explorar as pessoas e cuidar do meio ambiente. Uma outra característica dos produtos da TBS é não realizar testes em animais. A empresa foi comprada pela L’Oréal em 2006, e logo o Peta (People for Ethical Treatment of Animals) extraiu do grupo o compromisso de continuar com essa política.

Dentro do programa de fair trade, a marca afirma proporcionar rendimento justo para mais de 25 mil pessoas em mais de 20 países. As comunidades fornecem ingredientes nobres para os produtos, como castanha do pará, aloe, manteiga de karité, óleo de marula, mel, óleo de argan, óleo de soja, óleo de babaçu, entre muitos outros.

“Cerca de 94% dos nossos produtos usam ingredientes provindos dessas comunidades. São matérias primas fundamentais dentro da cadeia da categoria de cosméticos, essenciais para a produção de fragrâncias, produtos corporais e faciais e maquiagem. A TBS trabalha com 19 ingredientes e 50 acessórios. Ao todo, cerca de 320 mil pessoas são beneficiadas pelo trabalho”, afirma Karina Pereira Meyer, gerente de marketing da marca no Brasil.

E no Brasil?

historia-produtos-influencia-consumo-babacu-2Quebradeiras de babaçu maranhenses, pequenos agricultores de soja orgânica e não geneticamente modificada no Paraná e trabalhadores de uma indústria fornecedora de álcool localizada em São Paulo estão entre os fornecedores da TBS no Brasil.

Quem fornece o óleo de babaçu para a TBS é a Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco (COOPALJ), no Maranhão. Fundada em 1991, a cooperativa localiza-se na região do Mearim, centro do estado, e surgiu do movimento de mulheres pela luta em manter o babaçu livre.

Os grupos de quebradeiras de coco do babaçu no Brasil são formados quase que exclusivamente por mulheres de comunidades extrativistas do Maranhão, Tocantins, Pará e Piauí. Possuem como fonte de renda familiar principal ou secundária a coleta e quebra do fruto do babaçueiro, a fim de separar a amêndoa da casca. A semente do coco babaçu é oleaginosa, sendo utilizada como matéria prima para diversos produtos manufaturados, além de servirem de alimento para as quebradeiras e suas famílias.

Os babaçuais têm sido tradicionalmente encarados como áreas de usufruto coletivo, mesmo quando em propriedade privada, e o aprofundamento da concentração fundiária tem representado uma ameaça ao modo de vida tradicional das quebradeiras. Vários grupos se articulam na defesa de seu modo de via por meio da constituição de cooperativas e outras associações e têm lutado pelo reconhecimento de seus direitos aos babaçuais, estejam eles em terras públicas, privadas ou devolutas.

“Desde o princípio, a COOPALJ buscou trabalhar com produtos diferenciados, que tivessem boa aceitação no mercado do comércio justo e orgânico. E com um preço significativo, para conseguir beneficiar um maior número de pessoas. As quebradeiras de babaçu fornecem o coco para a cooperativa, a preço justo, mais alto do que o de mercado”, diz Valdener P. Miranda, que integra a cooperativa e a Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema), organização privada sem fins lucrativos, criada e liderada por agricultores e agricultoras familiares rurais e extrativistas do coco do babaçu.

historia-produtos-influencia-consumo-babacu“Estão envolvidas nessa relação com a TBS cerca de 1.400 famílias, de 16 comunidades. Para 2016, está previsto o fornecimento de 86 toneladas de óleo de babaçu para a empresa. A COOPALJ comercializa outros produtos da agricultura familiar também, como café, açúcar, sabão, mas 60% de nossas vendas vem do óleo”. O óleo de babaçu orgânico produzido é certificado pelo Instituto Biodinâmico (IBD).

Valdener informa que, hoje, a cooperativa tem 176 associados e é ligada a outros grupos por meio da Assema, num projeto maior de valorização da região que atinge 16 municípios com produção agroecológica e orgânica. “Queremos levar desenvolvimento econômico para quem mais precisa, diminuir o êxodo rural. As pessoas não precisam sair da sua comunidade para ter acesso a políticas de direito. Temos esperança de permanecer e fortalecer as pessoas e comunidades para que esse desenvolvimento seja local”.

Tentei falar com quebradoras ou quebradores de babaçu da COOPALJ, mas estavam em campo e não foi possível. Então selecionei o vídeo da Photo Brasil que está no final deste post e explica um pouco o processo de surgimento da cooperativa, criada para fugir de atravessadores e obter um preço mais justo na venda do fruto, segundo narrativa de seus integrantes.

Óleo de soja purinho e álcool

Na outra ponta do país, no Paraná, estão comunidades rurais que cultivam e colhem soja orgânica e não transgênica. A Associação de Agricultores Familiares Sustentáveis (AAFS) reúne 22 famílias que vivem próximas ao Parque Nacional do Iguaçu, em Capanema.

A TBS tem contrato com a Gebana, empresa brasileira que se instalou em Capanema em 2002 com o objetivo de agregar valores sociais, ambientais e econômicos à agricultura familiar. Uma das formas escolhidas para isso foi trabalhar com a soja orgânica. Nesse caminho, a Gebana começou a comprar a soja diretamente dos agricultores e a processá-la para extrair o óleo, e houve então o interesse da TBS em comprar esse produto e ajudar no desenvolvimento dessas famílias. Assim, a AAFS e a Gebana são parceiras.

“Trabalhamos num regime semelhante ao de cooperativa: temos os produtores cadastrados, fornecemos os insumos para eles produzirem, assistência técnica e garantimos a compra desses produtos com preço do mercado acrescido do percentual de orgânicos”, define Jonathas Baerle, gerente geral da Gebana.

A empresa busca também o desenvolvimento tecnológico para a agricultura orgânica em um processo participativo que envolve os próprios agricultores parceiros, universidades (UNIOESTE e UFTP), além de produtores alemães e de máquinas europeias.

A TBS compra cerca de 200 toneladas de óleo de soja orgânico por ano, pagando um valor 70% acima do mercado convencional. Por cada tonelada vendida, a empresa de cosméticos paga prêmio de 69 euros, sempre destinado para a AAFS. Em assembleia, os produtores definem a melhor aplicação para o prêmio, normalmente algum uso coletivo como melhorar a produtividade, investir em adubação, máquinas etc.

A AAFS é certificada como fair trade pela FLO Internacional (Organizações Internacionais do Comércio Justo), que também fixa um prêmio que a cliente paga para a cooperativa ou associação certificada. E o rito é o mesmo: a Associação decide conjuntamente como empregar o recurso.

Além da soja orgânica, os agricultores produzem, leite. E realizam a rotação de culturas incluindo também trigo e milho. A fruticultura também é comum.

Subindo um pouco mais no mapa do Brasil, chegamos ao estado de São Paulo. Os 500 litros de álcool orgânico utilizados anualmente pela TBS são adquiridos da empresa Native, que trabalha com produtos orgânicos e é ela mesma certificada em fair trade. As áreas produtoras de cana-de-açúcar orgânica da Usina Santo Antônio e da Usina São Francisco, bem como a indústria produtora do açúcar e álcool orgânico, são certificadas para as Normas de Comércio Justo ESR (Equidade, Solidariedade e Responsabilidade). O trabalho da Native tem também o selo EcoSocial, do Instituto Biodinâmico (IDB), e da União para o BioComércio Ético – UEBT.

A Economia Solidária tem muitos arranjos possíveis. Saber que toda essa rede de relações socioambientais e valores vem embutida dentro de um frasquinho de hidratante ou óleo corporal, de uma barra de sabonete, enfim, faz muita diferença.

Agora, fique com o vídeo que mostra como aconteceu a criação da COOPALJ.

Fotos: Divulgação/The Body Shop

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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