A herança de Marielle Franco


Tudo flui e nada permanece, tudo dá forma e nada permanece fixo.

Você não pode pisar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras, vão fluir.
Heráclito de Éfeso

Do ponto de vista da filosofia, o conceito de devir trás a ideia de que tudo se transforma e nada permanece o mesmo. Aliás, a única coisa que é permanente é justamente a mudança. Tem a ver com o futuro, que é inevitável, mas sobre o qual nada sabemos, porque as coisas podem, ou não, vir a ser ou a acontecer.

Não posso deixar de pensar no devir de Marielle Franco e de Anderson Gomes, executados a sangue frio há alguns dias. Ambos, cada um à sua maneira, tinham todo um futuro pela frente. Anderson buscando um trabalho no seu campo de paixão, e cuidando do filho tão esperado e amado. Marielle, seguindo de forma corajosa e resoluta sua trajetória de liderança social e política. O devir, que para eles parecia tão claro, foi cortado abruptamente.

Na caso de Marielle, todos os seus amigos e parentes, e quem a conhecia bem, são unânimes em dizer que ela tinha um futuro brilhante a seguir no campo da política. A vereadora trazia o que de melhor se espera de um político realmente preocupado com o bem comum. E, provavelmente por isto, foi uma fonte de inspiração para eleitores de todas as áreas da cidade.

Quais são os elementos de engajamento para quase 50 mil eleitores? Ela tinha clara conexão com suas origens, transparência na vida pública, coerência entre sua vida e os valores que defendia, capacidade de transitar em diferentes ambientes, dos mais simples aos gabinetes do Poder. Manejava uma rede pessoal e política sólida e capilarizada, tanto que recebeu votação para vereadora de todas as regiões eleitorais da cidade do Rio de Janeiro.

Sobretudo, Marielle tinha uma trajetória que combinava suas qualidades pessoais com uma formação acadêmica e política sólida, que começou ainda na época em que fez um curso pré-vestibular comunitário. Ela estudou sociologia e fez mestrado em administração pública com uma tese que investigou o impacto das UPPs nas comunidades pobres.

Em paralelo ia aprofundando seu conhecimento da mecânica da política ao atuar como assessora parlamentar e coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Alerj – Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Tudo isso, mantendo estreito vínculo com os movimentos sociais e com a base da comunidade, de onde vinha.

Não é possível dizer que os assassinos de Marielle miravam o futuro, cortando praticamente pela raiz uma trajetória que prometia muito no campo político. A mensagem do presente foi clara, de que ninguém está seguro.

Mas o devir traz consigo o inesperado, o incontrolável. As milhares de pessoas nas ruas e nas redes sociais clamando por justiça para Marielle e Anderson mostram que as mortes deles não serão em vão.

O fato é que construir uma trajetória política sólida como a de Marielle não é fácil e nem rápido. Neste sentido, ela é insubstituível.

Mas, neste momento, muitas outras mulheres pelo Brasil afora, que não a conheciam, tiveram a oportunidade de conhecê-la e de se inspirar nela para levar adiante sua luta por um país mais justo, diverso e inclusivo.

É verdade que um rio nunca é o mesmo, mas o fluxo das águas nos dá a certeza de que podemos nos banhar nele sempre que quisermos. E do rio que trouxe Marielle estão fluindo muitas outras. O movimento não para e quem insistir na crença de que pode evitar o inevitável será atropelado pela história.

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, Renato sempre trabalhou com temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, Renato sempre trabalhou com temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

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