A fome que bate à porta

Era uma manhã de uma segunda com tempo fechado. A temperatura estava na casa dos 17º, um frio incomum para o semiárido. Porém, Buíque, agreste de Pernambuco, geralmente é privilegiada no inverno. Chove bastante e as temperaturas caem. O município está num dos pontos mais altos do estado, há 800 m do nível do mar, o que colabora para um clima agradável. Não fosse a lama nas ruas e o lixo acumulado em praticamente toda esquina, Buíque até seria uma cidade bonita do interior. Mas não é.

O fato é que parece que ela está sempre em construção. Os sons da cidade inclusive sugerem isso: se ouve o barulho de um caminhão descarregando mais um monte de areia, provavelmente ao lado de alguma pilha de tijolos, estes que ocupam a maioria das ruas da cidade. E ficam ali por longos dias, muitas vezes atrapalhando o trânsito. A areia serve de banheiro para os gatos e os tijolos de casa para os calangos até que alguém arrume o que fazer com eles. Se ouve também os sons das serralherias e das ferramentas de solda das oficinas, que, apesar do fato da PE 270 rasgar a cidade ao meio, julgo ser em bem maior número que o necessário.

Um ponto de vista otimista acharia que esse grande canteiro de obras disfarçado de cidade representa um tipo de progresso. Mas não é bem assim. É uma soma de obras abandonadas ou intermináveis da prefeitura, com reformas nunca concluídas de casas cujos moradores não tiveram dinheiro para terminar. Numa cidade pequena, no interior do nordeste, parecem mais evidentes as dificuldades geradas pelo impacto negativo da economia na vida dos cidadãos.

Meu vizinho, um funcionário da única agência do Banco do Brasil no município, concluiu a construção de sua casa apenas o suficiente para morar com sua família. Isso foi em meados de 2015. Desde então, preferiu ter cautela para investir na conclusão do imóvel. Os outros vizinhos com reformas adiadas me falam a mesma coisa, variando o fato de alguns terem perdido os empregos ou estarem em situação financeira difícil desde que os preços subiram. Principalmente os preços do gás de cozinha e dos combustíveis.

Mas uma outra situação recorrente me serviu de termômetro para me preocupar com os dados que indicam o aumento da pobreza no país. O número de pessoas pedindo comida ou dinheiro nas ruas. Em 2014, por exemplo, quando cheguei em Buíque, Pernambuco, essa situação era rara e o país apresentava uma diminuição de 28,8% da população com privação de alimentos. Neste ano, recebi na minha porta uma média de três pessoas por semana pedindo ajuda, a maioria no sábado, quando acontece a feira livre da cidade e muitos moradores da zona rural podem vir de carona nos caminhões pau de arara que transportam os feirantes.

Naquela manhã fria de segunda, essa situação me chegou de forma diferente. Eu estava na fila dos frios de um mercadinho. Uma senhora me cutucou e perguntou se eu podia ajudá-la. Uma mulher roliça, cabocla de olhos encapsulados cor de mel avermelhados pelo cansaço. Olhava fixamente para mim sob o gorro vermelho, envolta numa manta velha estampada com os símbolos da bandeira do Brasil. Uma menina de 3 anos a agarrava na saia comprida que vestia.

Quando respondi que sim e que me esperasse um instante enquanto retirava o meu pedido, ela desabou no choro. Dizia que era a primeira vez que fazia aquilo e me pedia desculpas. Eu tentei consolá-la em vão, então, discretamente a agarrei pelo braço e a levei para comprar leite, achocolatado, biscoitos e um chinelo de dedo para a menininha. A vergonha que ela sentia a impediu que me esperasse na fila do caixa; foi para fora do mercado e ficou lá. Lhe entreguei as compras e ela foi embora com pressa, envergonhada, agradecendo: “Deus abençoe, Deus abençoe”.

Desde que o país abaixou a prioridade de políticas de proteção social, a partir de 2015, a ActionAid Brasil, indica que o país voltou ao patamar de 12 anos atrás no número de pessoas em situação de extrema pobreza. Naturalmente as regiões Nordeste e Norte possuem os maiores índices nos dados levantados por já serem suscetíveis. Relatório publicado em julho do ano passado por 20 entidades da sociedade civil alertava para a possibilidade do Brasil entrar para o Mapa da Fome da ONU novamente  —  tínhamos saído em 2014 . No começo do mês de julho deste ano, novo relatório (Ibase) foi lançado confirmando a péssima previsão.

Os motivos apontados para o crescimento da pobreza vão desde o ajuste fiscal que congelou os gastos públicos por 20 anos à cortes nos programas sociais como o Bolsa Família  —  como afirma o economista Francisco Menezes, pesquisador do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e da ActionAid em entrevista à Agência Pública.

Francisco corrobora com a ideia de que a alta do preço do gás de cozinha e os cortes no orçamento do programa Bolsa Família, possam ter relevância no aumento da pobreza no país, mesmo que ainda não exista levantamento específico relacionado. Segundo dados do governo, foram cortadas 1 milhão e 500 mil famílias do programa social. E o orçamento do Bolsa Família em 2018 já é o menor dos últimos sete anos. “O que se supõe é que parte das famílias cortadas sejam as mais pobres” —  diz o economista.

Tanto a alta do gás, quanto os cortes nos programas sociais podem ter um impacto muito maior do que se tem noção em municípios como Buíque. Além da miséria, questões ambientais também podem se agravar. Buíque abriga um extenso trecho do Parque Nacional (Parna) do Vale do Catimbau  —  que já conta com pouca ou nenhuma fiscalização  —  e tem se tornado cada vez mais frequente encontrar moradores locais na mata em busca de comida ou lenha (ou os dois).

O Parna Catimbau é uma importante área de Caatinga e a desertificação e a caça predatória podem se intensificar. Mas, falarei mais sobre isso nos próximos posts deste blog.

Fotos: Tiago Henrique
– no início do texto: Uma senhora espera na fila de distribuição de alimentos organizada por uma ONG, na Comunidade Cabelo Duro, Buíque;
– no meio do texto: moradores do sítio Mundo Novo voltam para casa em um caminhão após um dia de trabalho na feira livre de Buíque;
– no final do texto: Garoto levas suas cabras para vender no mercado público de Buíque.

Fotojornalista independente, paulistano baseado entre o agreste e o sertão de Pernambuco desde 2014, se dedica a documentar a vida de pessoas que detêm os conhecimentos e as técnicas necessárias para a preservação da cultura popular e as transformações socioculturais do sertão contemporâneo

Tiago Henrique

Fotojornalista independente, paulistano baseado entre o agreste e o sertão de Pernambuco desde 2014, se dedica a documentar a vida de pessoas que detêm os conhecimentos e as técnicas necessárias para a preservação da cultura popular e as transformações socioculturais do sertão contemporâneo

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