A exuberância e o desmatamento da Amazônia sob o olhar de Rogério Assis e Ciro Girard

Por Alberto César Araújo*

Os contrastes em dípticos do novo livro do fotógrafo Rogério Assis e do designer gráfico Ciro Girard (Editora OlhaVê) se complementam e se entrelaçam como os galhos das árvores nesta grande colcha de retalhos da paisagem amazônica.

A paisagem surge ora degradada, ora exuberante, ora calma e muitas vezes o frenético ritmo do desmatamento e da mudança climática nos causa um susto. Uma dúvida: Mato?.

Como bem disse Simonetta Persichetti, crítica, pesquisadora e professora de fotografia, “uma imagem não vale mais que mil palavras, mas cabem nela, mil perguntas”.

No final deste post, veja o impacto de oito das 29 combinações de imagens da obra de Rogério e Ciro.

Árvores e queimadas

Cada fotograma é uma interrogação. Um susto, um sobressalto. Pelo ar, pela água, por terra, percorreu as matas, registrando esse período de mudanças, de forte pressão que a região vem sofrendo. Principalmente do primeiro setor.

“Agro é f…!”,  diz Rogério que, com o ativismo que perpassa por suas lentes, contamina no bom sentido o leitor. É poético e panfletário. Não vejo isso como algo negativo, mas sim como um pedido de socorro, um grito.

E como precisamos gritar por ela. A Amazônia está morrendo, o ser humano ao matá-la, suicida-se.

Nisso, a estratégia usada por Ciro, autor do belíssimo projeto gráfico do livro (capa ao lado), é muito feliz. Quando coloca lado a lado, algumas perguntas: Se floresta ou plantação? Se estrada ou rio? Se queimada ou árvores? Se seca ou cheia? Se chuva ou seca? Se sustentável ou criminosa? Se vivo ou morro.

Tica Minani, coordenadora da campanha do Greenpeace na Amazônia, disse sobre o livro e seus autores: “Com uma obra visualmente rica e estimulante, o fotógrafo Rogério Assis e o designer Ciro Girard nos brindam com uma provocação igualmente reveladora: vida e morte, beleza e destruição, maravilhamento e medo separados por uma tênue linha. Em cada lado, uma escolha. E uma consequência. Em um momento de grave inversão nos valores da sociedade brasileira, seria assim tão absurdamente difícil saber qual lado escolher?”.

Um pouco sobre Rogério Assis

Rogério é paraense, radicado em São Paulo há 30 anos. Tem passagens pela imprensa de veículos nacionais e internacionais. Foi um dos fundadores da agência Foto Site e, em 2008, criou a Editora Mandioca, que publicou por dois anos a Revista Pororoca, 100% dedicada a temas relacionados à Amazônia.

Desde então, vem desenvolvendo projetos editoriais em colaboração com outras editoras, com destaque para o livro D. Brazi – Cozinha Tradicional Amazônica, em parceria com a Editora BEI, e o livro” Zo’é”, em parceria com a editora Terceiro Nome.

Vencedor do edital de cultura e meio ambiente do Banco da Amazônia em 2014, desenvolveu o projeto Esse Rio É Minha Rua, sobre o cotidiano da comunidade ribeirinha Boa Esperança. Atualmente, integra o conselho curador da DOC Galeria em São Paulo e ministra workshops sobre fotografia documental, além de colaborar com as ONGs Greenpeace e Instituto Socioambiental (ISA).

Mato? – Rogério Assis e Ciro Girard
116 paginas, capa dura, impressão offset em papel alto alvura 150g
À venda na loja online da Editora Olha Vê

*Alberto César Araújo é editor de fotografia da Agência Amazônia Real, formado em jornalismo pela Uninorte/Laureates em Manaus. Atuando na profissão desde 1991, seu trabalho enfoca a vida nos rios e nas comunidades da Amazônia, em questões ambientais relativas ao desmatamento, queimadas, secas e enchentes. 

Este texto foi publicado no site Amazônia Real, em 24/3/2018

Fotos: Divulgação

Edição para publicação no Conexão Planeta: Mônica Nunes

É uma agência de jornalismo independente, criada em 2013 e sediada em Manaus, no Amazonas. Sua missão é fazer jornalismo ético e investigativo, pautado nas questões da Amazônia e de seu povo, em defesa da democratização da informação, da liberdade de expressão e dos direitos humanos

Amazônia Real

É uma agência de jornalismo independente, criada em 2013 e sediada em Manaus, no Amazonas. Sua missão é fazer jornalismo ético e investigativo, pautado nas questões da Amazônia e de seu povo, em defesa da democratização da informação, da liberdade de expressão e dos direitos humanos

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