A extinção da experiência


Foi um daqueles encontros memoráveis. Ocorreu ao final da minha primeira infância, por volta dos cinco ou seis anos. As lembranças são fragmentadas, mas os recortes que consigo acessar são nítidos e reconfortantes. Revelam uma conexão primordial com a natureza.

Um riacho caudaloso e transparente em meio ao cerrado paulista – naquela época, muito conservado. Dois ou três caniços, minhocas e massinha como iscas, “repelex” para espantar mosquitos. Para o lanche, pão com mortadela e guaraná caçulinha, a ser refrescado pela água do rio. Estava pronta a aventura em busca de lambaris, piaus, mandis e, eventualmente, uma valente tabarana.

O “agente” da aventura era meu pai. Para chegar ao ponto ideal da pescaria, percorríamos uma trilha que parecia interminável. Zelo e afeto temperavam a jornada. Em trechos mais fechados da picada, ele me carregava nos ombros, de “cavalinho”. Dizia que era para me proteger de acidentes ou de uma eventual picada de cobra. Minha dúvida era outra: e se ele fosse picado, o que eu – muito pequeno – faria?

É claro que o ataque nunca aconteceu, mas isso pouco importava. O “estrago” já estava feito: a primeira infância é uma fase rica em experiências e descobertas. Nessa etapa, mais do que em qualquer outro momento da vida, o cérebro forma conexões e se desenvolve. A arquitetura cerebral se prepara para o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional, afetivo e social.

Jamais imaginaria o quanto aquelas experiências, derivadas de um contato primitivo, seriam determinantes para minha vida. A paixão mobilizadora pela natureza, a curiosidade pelos rios e pelos peixes – com boa chance – nasceu ali. Cinquenta anos depois, trinta de carreira, minha vida está definitivamente mergulhada nos rios e peixes. Há 18 anos trabalho na Uniderp, onde coordeno um projeto de pesquisa e educação, com ênfase na conservação da biodiversidade dos rios de Bonito, Mato Grosso do Sul.

Perda de conexão com a natureza deteriora a vida das pessoas

Há uma tendência nas sociedades modernas de as pessoas se afastarem do mundo natural, ficando menos propensas a ter contato direto com a natureza, com os ambientes naturais e suas criaturas.

Há uns 20 anos, o biólogo e escritor Robert Michael Pyle denominou esse afastamento como a extinção da experiência.  Menos e menos pessoas, sobretudo crianças, têm contato diário com a natureza.  Surpreendentemente, o fenômeno recebeu atenção limitada. Os poucos estudos do tema, contudo, revelam que a perda de interação com a natureza não só diminui uma ampla gama de benefícios relacionados à saúde, mas também desencoraja emoções, atitudes e comportamentos positivos em relação ao ambiente. Derivado disso, temos um ciclo negativo de insatisfação com a natureza.

Pyle destaca que as consequências são péssimas. A perda de interação com a natureza inclui a deterioração da saúde e do bem-estar, a redução da afinidade emocional com o mundo natural e o declínio de atitudes e comportamentos em defesa da conservação ambiental. Como resultado, a extinção da experiência tem sido cada vez mais vista como uma questão importante de saúde pública e como um dos obstáculos essenciais para reverter a degradação ambiental do planeta.

Tal modificação não se limita a uma perda do engajamento com áreas prístinas, mas também envolve mudanças em uma ampla gama de atividades e experiências, incluindo o tempo passado em espaços verdes urbanos observando a vida nas cidades.

Não é tarefa simples identificar exatamente o que levou ao declínio nas atividades espontâneas ao ar livre. Alguns estudos apontam possíveis fatores, como o rápido crescimento das populações nas cidades e os avanços tecnológicos que resultaram em passatempos sedentários: assistir televisão, jogar em computador ou usar a internet são atividades cada vez mais intensas. Não se trata de negar os avanços da tecnologia, mas as experiências de natureza, ao ar livre, não deveriam ser substituídas por alternativas virtuais.

Lamentavelmente, gerações mais jovens estão cada vez mais privadas de experimentar o contato direto com a natureza, com o encanto de um cenário, com o poder revigorante de um banho de cachoeira, com os sons das aves.

Mas, mesmo em um grande centro urbano como Nova York (foto de destaque deste post), o contato com áreas verdes é fundamental para criar vínculos afetivos com a natureza.

Elo invisível, mas líquido e certo

Rios de cerrado e bom grau de conservação, comuns no passado, hoje são raros no Brasil

Do ponto de vista evolutivo, o célebre biólogo Edward O. Wilson argumentou que a humanidade tem uma afeição emocional à natureza, de maneira especial aos organismos vivos, caráter profundamente enraizado em nossa biologia. Wilson propôs a chamada hipótese de biofilia, na qual afirma que os seres humanos evoluíram e são parte da natureza. Mesmo morando em grandes cidades, ainda mostramos adaptações herdadas que nos tornam capazes de funcionar bem quando estamos expostos a ambientes naturais.

Há numerosas evidências que mostram que a perda dessas interações muda as atitudes das pessoas em relação à conservação do mundo natural, incluindo seus valores, suas crenças sobre o ambiente, suas normas percebidas de ética ambiental e sua disposição para proteger a natureza.

Além de ampliar pesquisas nesta área, é necessário que políticas públicas – fundamentalmente nas áreas de ensino e lazer cultural – abordem e aperfeiçoem os mecanismos para a conscientização sobre a extinção da experiência. Concentrar atenção e esforço no planejamento da melhor forma de reduzir essa extinção e certamente contribuirá para alcançar sociedades saudáveis ​​e superar uma ampla gama de questões ambientais.

Do rio de minha infância, o rio Araraquara na pequena Altinópolis, resta apenas um fio d´água em meio aos canaviais que tomaram conta do cerrado paulista. Contudo, da mesma forma que Robert Pyle enfatizou que o contato direto e pessoal com os ambientes naturais é vital para forjar a intimidade emocional da pessoa com a natureza, posso assegurar que os momentos vividos nas pescarias que fiz com meu pai trouxeram reflexos duradouros. Ainda há tantos rios a proteger.

E claro, não resta dúvidas que é fundamental reconectar pessoas com o mundo natural.

Fiz a foto abaixo quando meu filho tinha 5 ou 6 anos. Desde pequeno, ele me acompanhava em meus trabalhos de campo na natureza. E, como eu, cresceu influenciado pelo amor e respeito que nós, em casa, temos pelo meio ambiente. Hoje, é biólogo.

Fotos: José Sabino/Natureza em Foco
_____________________
Fonte: Soga, M. & Gaston, K. J., 2016. Extinction of experience: the loss of human–nature interactions. Front Ecol Environ 14(2): 94–101, doi:10.1002/fee.1225

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

Deixe uma resposta