A chuva e as primeiras experiências do universo infantil

criança brincando na chuva

Esta semana um dos vídeos que gosto muito voltou a ser compartilhado nas redes sociais. Trata-se de imagens que registram o primeiro encontro de uma garotinha com a chuva.

Por que este vídeo continua sendo tão compartilhado? Por que a expressão e a felicidade da menina ao sentir a chuva emocionam tanto?

A resposta está em nós. Está no nosso corpo e em nossas percepções. Quando um fenômeno passa a fazer parte da rotina, deixa de ser novidade, ele já não nos surpreende. Nosso corpo é anestesiado para esses acontecimentos simples do dia a dia: o vento no rosto, pisar na grama, sentir a chuva, o sabor de uma fruta, parar e observar uma flor, o voo de um inseto, gotas de orvalho numa teia de aranha.

A maneira como vivemos hoje muitas vezes nos fecha em espaços bastante pequenos, ambientes com climatização artificial, nos coloca frente a diferentes tipos de telas, e nos faz sentir uma insegurança constante.

Joseph Chilton Pearce, em seu livro A Criança Mágica, diz que somente é possível estar inteiro em uma experiência quando todos os sentidos estão ali reunidos. É preciso concentrar todas as percepções para ter uma imersão completa. E a insegurança nos afasta destes momentos. Essa sensação é capaz de desviar sentidos como audição e visão para uma condição de alerta para qualquer outra situação que possa vir a acontecer. Estes sentimentos podem influenciar a experiência dos adultos, mas também limitar a experiência de uma criança.

A alegria e a empolgação da menina é de alguém que está descobrindo o mundo. Os adultos que estão próximos a ela permitem que essa experiência aconteça. Ela tem a oportunidade de se molhar, de poder sentir os pingos d’água. É fundamental ter por perto adultos que permitem ao invés de repreender, admirem ao invés de mostrarem-se assustados. Quando isso acontece, a criança tem mais segurança para experimentar o mundo que ela está explorando.

E para nós, adultos, que essas descobertas das crianças sirvam de inspiração, para que a natureza, mesmo que em pequenos detalhes da nossa rotina, nos encante.


Foto: Beryl_snw/Creative Commons/Flickr

Ana Carol Thomé

É pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural (que dá nome a este blog), do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

Um comentário em “A chuva e as primeiras experiências do universo infantil

  • 7 de fevereiro de 2016 em 12:01 PM
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    Rotinas para uns, comum para outros. Aqui perto nas ruelas da Orfanotrófio, nos dias de chuva a criançada deste muito cedo sabem o que é a chuva escorrendo no rosto, sabem também sobre o esgoto a céu aberto! Já o incomum são sorrisos, palavras amigas!

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