A canoa sagrada dos Yawalapiti

Kwamuty (*1) é o criador do homem, filho do Morcego e neto do Jatobá, um dos entes mais antigos na história da criação dos Yawalapiti. Foi escutando histórias assim que nasceu o desejo de me aprofundar sobre os mitos indígenas e seus personagens. E essa também foi a inspiração para que eu, em longas conversas com os caciques Aritana, Makawana, Eulupe e Aripirá (na foto abaixo), alimentasse o desejo de retratar a construção de uma canoa feita com a casca do Jatobá (Hymenaea courbaril).

Na verdade, foram alguns anos de conversa e, finalmente, no final de 2017, o desejo se materializou e a embarcação nasceu das matas xinguanas e foi morar nas águas do rio Tuatuari.

Participar da feitura desta canoa foi algo fantástico e cheio de simbologia, pois o Jatobá é uma árvore mítica e o trabalho desempenhado pelos Yawalapiti foi muito precioso já que teve o envolvimento de toda a comunidade no processo. E mais: já fazia mais de 35 anos que este tipo de canoa não era construído no Xingu.

Com a chegada das velozes barcos de alumínio e seus motores potentes, paulatinamente a embarcação tradicional foi deixada de lado, fazendo com que este saber cultural quase se apagasse da memória dos Yawalapiti.

Numa certa feita, em uma conversa com Aritana, eu comentei que os povos do Araguaia eram grandes canoeiros e alguns tinham costume de fazer canoas com a casca do jatobá. Foi, então, que ele me contou que, no Xingu, antes da chegada dos “caraíbas” (homens brancos), todas as canoas eram feitas da casca do jatobá.

Segundo o cacique, elas eram mais comuns que as canoas feitas de tronco, por serem mais leves e bastante duráveis. “É também uma canoa muito mais estável e silenciosa na hora da pesca”, ressaltou Aritana. No entanto, “com o tempo, todos tomaram gosto por andar nas voadeiras, que são muito rápidas e isto também é bom. E, assim, fomos esquecendo da canoa antiga”, comentou.

Como se faz uma canoa, em três tempos

Aqui, relato o processo, dia a dia, pra dar o gostinho do que senti e vivi com este povo maravilhoso e sábio.

PRIMEIRO DIA
Logo ao amanhecer, depois de tomarmos café com beiju, fomos para a estrada. Há uns três quilômetros da aldeia, entramos numa mata alta para procurarmos a árvore do Jatobá. Ela não pode ser de qualquer tamanho. Ela tem de ser alta e ter um bom diâmetro. Logo vimos, a uns 30 passos da estradinha, um enorme e majestoso Jatobá. Ficamos felizes, mas a alegria durou pouco. Logo Aripirá advertiu: “Humm, aquela tá muito bonita, mas tem abelha lá no alto!”.

Continuamos a busca pela árvore perfeita e vimos mais três possibilidades. Uma era muito pequena, outra tinha rachaduras e a terceira que não era tão alta. Nada feito! Então, decidimos enfrentar as abelhas. Aripirá fez um corte com o seu facão no pé do primeiro Jatobá, retirando dali uma pequena lasca para ver se sua casca já estava estava boa para virar canoa. A resposta veio rápido e ficamos felizes com sua avaliação: a árvore já estava pronta.

SEGUNDO DIA
A luta com as abelhas xupé se iniciou logo ao amanhecer. Cortamos uma imensa vara, pois as abelhas estavam a uns nove metros de altura, e na ponta fizemos uma tocha. O cacho era bem grande, com um metro de diâmetro, aproximadamente. Peguei uma das varas e, para ter certeza de que as abelhas xupé estavam em casa, dei uma cutucada. Em instantes fomos atacados e o pessoal me chamou de doido, pois estes insetos, apesar de não terem ferrão, mordem ferozmente e se enroscam nos cabelos.

Este ataque foi apenas o começo da batalha. Assim que subimos com as tochas acesas, elas mostraram o poder de uma colmeia, com várias investidas sobre os que tentavam se aproximar. Depois de muitas picadas, xingamentos e corridas estratégicas, terminamos o dia vitoriosos, em meio a muitas risadas. E ansiosos para iniciarmos a construção da canoa.

TERCEIRO E ÚLTIMO DIA
Todos pintados de urucum para entrar na mata. Eulupe e Makawana iniciaram a limpeza ao redor da árvore e, logo, outros se juntaram para o mutirão de construção. Cortaram algumas árvores mais finas para fazer um jiral triangular ao redor do grande Jatobá. Depois de pronto, com quase 9 metros de altura, Aripirá escalou pela estrutura e, com seu facão, foi riscando o caule onde deveriam fazer os cortes verticais, e também onde ele se fecharia, na horizontal.

Embaixo, outro corte horizontal em toda a volta da árvore. Em seguida, alguns homens subiram para participar da ação coletiva. Outros começaram a fazer estacas com as pontas achatadas, pois estas seriam as cunhas que iriam ajudar a separar a casca do tronco. Um trabalho que requer muita paciência e técnica, pois se forçamos a retirada da casca ela pode rachar. E isto seria o fim da canoa!

A beleza do saber

As estacas vão sendo colocadas aos poucos. Todos com os olhos fixos no imenso Jatobá, Como mágica, a casca simplesmente solta-se do tronco fazendo um barulho oco. A admiração é geral, pois ela se desprende por inteiro. Começa, então, uma cuidadosa operação para descer a casca de forma controlada, para evitar que ela despenque e se quebre. Todos unem forças e logo a imensa casca está no chão. Os homens sorriem admirados de si mesmos, ao refazerem aquilo que seus avós um dia fizeram. A canoa começa a surgir, ganhar forma e é moldada pelo fogo.

Já assisti a inumeros rituais, participei de caçadas tradicionais, andei em florestas virgens. Mas testemunhar a criação de algo assim tão majestoso me deixou em êxtase, pois carrega uma carga profunda de aprendizado que levarei para a vida toda.

Cada passo, cada conversa, cada canto, cada gota de suor de cada um daqueles homens, jovens e velhos, para que a canoa se tornasse realidade. Agradeço a todos os Yawalapiti e, em especial, aos meus amigos Aritana, Aripirá, Makawana e Eulupe. Nada disso seria possível sem vocês!

E, antes que alguém pergunte se o Jatobá que escolhemos morreu, já explico. Na natureza, em verdade, tudo se transforma, nada se perde. Ao tirar a casca, como fizemos, a árvore pode, sim, morrer pois há uma grande possibilidade de ela ser atacada por insetos que se alimentam de sua seiva. A casca é uma defesa natural e, sem ela, as possibilidades de contrair uma doença, aumentam.

No caso deste grande Jatobá, os Yawalapiti já estavam decididos a utilizá-lo por inteiro, não só a casca, transformando sua madeira em bancos e peças para uso em rituais. Isso porque esta é uma árvore sagrada e nada pode ser desperdiçado. Se ela fosse deixada lá para morrer os Mamaés (espíritos) poderiam ficar bravos e isto não é bom!”.

De qualquer forma, é importante lembrar que os povos indígenas são sábios para lidar com a natureza e tirar dela apenas o que precisam. Eles não decidiriam tirar esse Jatobá da floresta se houvesse algum impacto maior.

Agora, deixo vocês com algumas das imagens que fiz durante este ritual único. No final do post, assista ao vídeo que produzi e acrescenta ainda mais beleza a este post.

Edição: Mônica Nunes

 

(*1) Kwamuty: Demiurgo, criador, na língua Yawalapiti, pertencente à família Aruak.

(*2) Jatobá: Árvore típica do Cerrado e Mata Atlântica, que também pode ser encontrada na Amazônia e no Pantanal. Pode alcançar 40 metros de altura e até dois metros de diâmetro. O nome tem origem Tupi e quer dizer “árvore com frutos duros”. É considerada uma árvore sagrada por povos indígenas, que serviam seu fruto em momentos de meditação. A madeira do Jatobá é uma das mais valiosas do mundo. De extrema dureza e resistência, é usada na construção civil e naval.

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de “Diário de Campo”. É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Renato Soares

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de "Diário de Campo". É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Um comentário em “A canoa sagrada dos Yawalapiti

  • 31 de janeiro de 2018 em 1:13 PM
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    Fantástico o trabalho fotográfico. Nunca vi o índio tão bem retratado!

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