A bolha da intolerância

bolha da intolerância

Este post pode ser para você que mal frequenta museu, galeria. Que não vê sentido em arte, preferiria estar em Marte.

Às vezes eu também preferiria, embora ser alvejada pela arte seja para mim algo como aquele  instante que se quer ver repetido para sempre. É meu infinito poeticamente eudaimônico, só para lembrar a palavra grega sempre repetida nas palestras de filosofia que mais bombam na internet ultimamente (aquelas do professor meio boca suja Clóvis de Barros, profundas, mas também divertidas. São boas para quem começou agora o trânsito na filosofia e nada de mais para quem já é garantidamente filósofo e, claro, acha o próprio discurso melhor).

Deixo aqui o link da palestra sobre beleza e arte que, provavelmente você não vai assistir, argumentando que é longa, que não tem tempo e tal.

Tempo, tempo, tempo…

O tempo anda passando tão rápido…  É tanta barbaridade correndo solta e nos atropelando… Não tem como deixar a polêmica da semana anterior passar em branco. Mesmo porque os casos de censura continuam sendo registrados por aí.

 

Queria ter mil braços para agarrar e tentar entender todos os credos ou mais raivosamente espremer, dissolver tantos humores fétidos ou transformá-los em pó e apagar da história esses momentos vergonhosos e retrógrados.

Que bom se a hóstia tivesse gosto de liberdade e não o sabor amargo da culpa confessada. Tanta culpa que não precisaria de religião para ser redimida… Culpa que não precisaria ser culpa. Quanto corpo contraído e sem expressão por carregar estigma. Quanto desejo inofensivo que acaba em proibição crastrante. Não que precisemos realizar todos. Não que precisemos ser escravos de todos os nossos desejos. Há razão no meio disso tudo…

Seja como for…. Voltando à censura. Digam o que disserem. Esperneiem o quanto quiserem.
Não há como deter a arte. Ela pode ser o que quiser: denúncia, erotismo, beleza, feiúra, tragédia, discussões colocadas para baixo do tapete…

Sobre as duas obras abaixo de Bia Leite, o catálogo da exposição “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” diz o seguinte. “Bia talvez seja uma das poucas artistas brasileiras a enfrentar com desenvoltura e coragem esse tema tabu, que é a homossexualidade na infância e o portentoso sofrimento que crianças atravessam na fase escolar e no início da adolescência. A artista produziu essas pinturas a partir da combinação de fotografias das crianças retiradas do www.criancaviada.tumblr.com, onde são postadas fotografias da infância dos próprios usuários LGBT com comentários”.

Ao jornal EL PAÍS, a artista Adriana Varejão afirmou que a obra abaixo é adulta, feita para adultos. “A pintura é uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as Chungas, clássicas imagens eróticas da arte popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil.

Mas os moralistas cegos que deturpam ideias e conceitos com pensamentos preconceituosos e perigosos, esses só podem ser o que são: moralistas cegos envenenados pela intolerância. E eles não temem a justiça do seu Deus que apregoa o amor ao próximo. A desculpa dos pastores deve ser que o pessoal LGBT não está próximo deles, mas bem distante, graças a Deus.

As acusações se concentraram em apenas três das 264 obras da mostra. Pode-se argumentar que as obras deveriam ter sido colocadas num ambiente protegido com um aviso sobre o conteúdo ou que cada obra para evitar má interpretação (ou má fé), deveria haver um texto explicativo ao lado e não somente no catálogo ou, ainda, que  deveria ter ficado mais clara a faixa etária para visitação e mais tantos ous… No entanto, acredito, essas colocações não poderiam ser consideradas motivos para fechamento de uma exposição que discute a importância de lidar com as diferenças. Se surgiram problemas que se resolvessem ao longo do caminho…

Esses dias, num bate-papo aqui em Curitiba, no Departamento de Artes da Universidade Federal do Paraná sobre o fechamento da exposição do Santander e a importância das instituições se posicionarem contrárias ao ato, ouvi um argumento, não gravei de quem, que vou reproduzir aqui porque penso da mesma forma: o problema não começa necessariamente na política; é uma questão religiosa. Os evangélicos têm uma grande bancada política e ela se insere em movimentos como o MBL que se fundamentalizam, assustadoramente, mais e mais a cada dia.

Esse pessoal precisa de um banho para lavar a alma. Para desgovernar a história. Para parar de perseguir quem prefere, na sua, dar vazão ao natural prazer e não deixar, quem sabe, carência, frustração, recalque (quem não tem?) canalizarem-se para violência verbal e física contra gente inocente.

No meio de tanta coisa que gruda – chiclete, bala, refrão de música ruim, esperma: – que os outros inocentes, os nossos pequenos da era digital sem censura, possam receber respostas naturais dos pais para as perguntas óbvias. Ah! Esses pais travados pela vergonha…

Por medo de conversar sobre temas que consideram impróprios, silenciam e deixam os filhos à mercê da internet. Seria melhor procurar informação, argumento ou tratamento mesmo. Ou quem sabe, observando a idade e/maturidade do filho, ir à uma exposição como a Queermuseu, pegar o gancho e falar de assuntos que estão aí, que precisam ser debatidos. Não há como permanecer numa bolha, aprisionado. Ela acaba estourando. E aí, vira tudo aquela gosma…

Veja mais obras da exposição.

Fotos: divulgação Santander

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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