A biodiversidade no paladar das crianças

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Para escrever este post conversei com Claudia Mattos (Espaço Zym), uma chef de cozinha muito especial que tem se aprofundado no conhecimento das plantas nativas e nas tradições dos povos antigos para difundir um paladar conectado com a nossa terra e com seus ciclos naturais. Se a gente quer se aproximar da natureza, a alimentação é um caminho muito especial, já que nos alimentamos todos os dias e nossas escolhas farão parte da nossa constituição física e cultural, ou seja, da nossa natureza.

A alimentação moderna, cheia de produtos industrializados, faz parte de um mesmo processo que nos leva a um afastamento daquilo que é natural. Os efeitos colaterais disso já sabemos, pois os aditivos químicos são causadores de inúmeras doenças assim como os açúcares e as gorduras. Crianças com diabetes, colesterol, pressão alta e obesidade eram raríssimas 60 anos atrás.

Aproximar as crianças da natureza é tão importante quanto oferecer a elas alimentos conectados com nossas raízes e nossa história cultural. Hoje, estamos culturalmente condicionados a não gostar do que é azedo e amargo, e temos tendência a apreciar muito mais o que é doce ou salgado. Ou umami. Sabe o que é isto?

Eu não conhecia este sabor, umami. Foi a Claudia que me explicou que é o gosto saboroso e agradável, reconhecido cientificamente como o quinto gosto básico. A palavra é de origem japonesa, mas sem tradução para outro idioma. Todos usam o mesmo termo para essa percepção. O gosto umami foi sendo identificado nos alimentos com o tempo e acabou entrando para a indústria alimentícia como glutamatos, produzidos quimicamente. Há muitos estudos que comprovam o mal que essas substâncias fazem para a saúde. Todo alimento industrializado as contém.

Então, o que fazer? Oferecer às crianças alimentos frescos feitos em casa, sem adição de glutamatos (é só olhar na embalagem para identificá-los). Uma forma muito divertida de motivar as crianças a querer experimentar alimentos saudáveis é caminhar com elas pelas ruas da cidade, prestar atenção e identificar as plantas alimentícias que são abundantes nas calçadas e nos quintais. Essa pode ser uma atividade muito divertida e cheia de descobertas para as crianças e para os adultos também.

As  árvores frutíferas mais comuns são as jabuticabeiras, as pitangueiras, as goiabeiras, mangueiras, os abacateiros, as bananeiras… E tem também as menos conhecidas – mas nativas – como o cambuci, a uvaia e a seriguela.

Muitas das nossas frutas nativas já não são tão apreciadas por serem mais ácidas ou amargas, gostos que concorreram com o doce. Hoje, a maioria das pessoas prefere as frutas doces, mas, ao que tudo indica, isso é só mais um dos condicionamentos a que estamos subordinados.

Além das frutas, há muitas flores comestíveis (foto deste post) como a Maria-sem-vergonha, a capuchinha, o flamboyant, a pata de vaca, o hibisco. E as ervas como peixinho, major gomes, poejo e dente de leão.

Ao caminhar com as crianças para observar e desfrutar da natureza da cidade, é interessante poder colher e experimentar. Claro, as frutas, flores e ervas vão precisar ser higienizadas. Então vá com uma cestinha para recolher o que coletou e leve-as para casa para lavar. Deixe as crianças fazerem isso, o que vai deixa-las mais curiosas e interessadas. Deixe que elas observem as diferentes formas e deem asas à imaginação, criando histórias e fantasias. E que elas preparem o prato, com as cores, formas e sabores de sua preferência, ampliando assim seu vocabulário gastronômico.

A criança não tem o pré-conceito dos adultos e sem a influência destes pode experimentar a liberdade que toda experiência com a natureza proporciona.

Foto: Divulgação

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

Rita Mendonça

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

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