A beleza surreal da ave do paraíso

Há dois anos fui à Papua Nova Guiné. Um país do outro lado do mundo, que tem na sua essência um “quê” a mais de mistério em relação aos outros países vizinhos e mais conhecidos em nossas terras ocidentais.

É comum as pessoas não saberem muito sobre este país. No máximo, o que se sabe é que é moradia das fantásticas aves do paraíso, dos povos que se pintam de amarelo, de um ou outro vulcão que só dá trabalho para a população, e para por aí. Mas talvez seja justamente por conta desse desconhecimento, que sua biodiversidade ainda é uma incógnita para a ciência, seja quando se pensa nas aves ou no peculiar canguru arborícola. Ou ainda sobre as sociedades tradicionais que habitam aquelas florestas, cujo conhecimento antropológico ainda é incipiente.

Permaneci alguns dias no país e dividi meu tempo entre as aves, que – como em qualquer lugar do mundo, nos dão a graça apenas no raiar do dia -, e a rotina nas aldeias dos povos Huli.

O que eu não sabia é que algumas espécies de aves do paraíso chegaram à beira da extinção no início do século XX, quando suas penas se tornaram desejadas para adornar peças de vestuário após a descoberta dessas ilhas por exploradores europeus. E quis saber mais.
Rapidamente meus olhos se voltaram também para um outro tema que é recorrente na minha vida profissional: os problemas ambientais.

Nas pequenas estradas de terra que percorri para alcançar trechos da floresta tropical, deparei-me com centenas de pilhas de troncos cortados à beira das estradas e as queimadas marcando o céu com cogumelos de fumaça. E senti uma angústia terrível: que este país pobre tenha o mesmo destino de muitos outros que não possuem gestão dos recursos naturais.

Além das empresas madeireiras estrangeiras que estão se alojando no país, o povo, ainda com fortes traços de estruturas sociais tribais, está vendendo madeira sem o menor critério, como forma de adquirir recursos (mínimos, diga-se) para comprar comida. Mesma tragédia anunciada, que há mais de 25 anos vejo nos confins amazônicos, no Cerrado do centro-oeste e na Caatinga nordestina.

À parte esta problemática ambiental (e talvez eu retome a este assunto algum dia, em outro post) o fato é que algumas espécies de aves do paraíso permanecem intocadas, tão coloridas e com seu penachos e caudas tão longos que parecem pertencer a dois animais simultaneamente. Sem contar os inúmeros psitacídeos – araras, papagaios, periquitos, jandaias, maracanãs, tuims, agapornis -, muito coloridos também!

Aliás, as cores destas aves beiram o surrealismo de tão intensas (prova irrefutável que a natureza não precisa de manipulação de imagem, como alguns fotógrafos insistem em fazer). Enfim, um país esplendoroso, com muito a se descobrir.

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

Adriano Gambarini

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

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