A beleza, o tempo e a cobiça na Serra da Bodoquena, região de Bonito

As águas cristalinas que fluem pela Serra da Bodoquena, no Mato Grosso do Sul, deram fama mundial à região. Rios e riachos cravejados de vida serpenteiam pelo planalto em direção à planície pantaneira. Como artérias, irrigam uma das regiões mais fabulosas do Brasil. Quase cem espécies de peixes nadam em cenários idílicos, emoldurados por uma miríade de plantas aquáticas e criaturas inimagináveis. Formam verdadeiros tesouros naturais.

As águas límpidas do Olho d’Água (foto acima) permitem que os tons de verde das plantas aquáticas e o movimento calmo dos peixes “rivalizem” com as florestas ripárias. Atividades turísticas de flutuação com snorkel são desenvolvidas na região de Bonito e propiciam aos turistas a chance de observar a grande biodiversidade submersa – e emersa – da região da Serra da Bodoquena. Rios, como o Olho d’Água, fluem protegidos pela densa floresta e passam a ser estimados por toda sua grandiosidade biológica. A foto é de Oliver Lucanus (Fish and Forest Project).

Esses ecossistemas aquáticos abrigam, a um só tempo, uma combinação incomum: elevada concentração de biodiversidade imersa em águas absolutamente cristalinas. Dezenas de cachoeiras e cavernas completam os cenários da Bodoquena, onde se localizam Bonito Jardim, para citar apenas os dois municípios mais conhecidos.

Lamentavelmente, este paraíso sofre ameaças. A mais aparente – mas não única – é o turvamento das águas de alguns rios, como o Formoso e o Prata. Eventos de turvamento têm ocorrido em escala regional, com intensidade e frequência que não aconteciam no passado recente. A famosa transparência das águas revela também o lado mais atrasado de parcela do agronegócio que usa tecnologia do século 21, mas eticamente ancorou no século 19. 

Entre 2012 e 2018, apenas no município de Bonito, a área dedicada à agricultura saiu de 15 mil hectares para atuais 52 mil hectares. A mudança no uso do solo – dominada pela expansão agrícola – não seria problema se a legislação fosse cumprida e boas práticas de manejo e conservação tivessem sido adotadas. Sem os cuidados com o solo, ocorre erosão e a terra é levada para os rios.  

A pressão para a mudança da matriz de produção da pecuária de corte para a agricultura de larga escala foi detectada por Edmundo Dineli, ainda em sua primeira passagem como Secretário de Meio Ambiente de Bonito. Dineli ressalta que, a despeito da experiência acumuladas em gestões anteriores, “há uma pressão econômica muito grande, porque além das paisagens, Bonito é privilegiado por ter também solos férteis, de alto potencial agrícola. O desafio é conciliar as atividades”, destaca. 

Para o Promotor de Bonito, Alexandre Estuque Júnior, a mobilização da sociedade que ora ocorre – incluindo o envolvimento da OAB-MS e de autoridades municipais e estaduais – demonstra a importância e a fragilidade dos ambientes da Serra da Bodoquena. Contudo, Estuque ressalta a deficiência dos órgãos públicos para efetivar a fiscalização. “Para poder cobrar, os órgãos ambientais têm que ter estrutura mínima, mas independentemente disso o Ministério Público Estadual instaurou inquéritos civis para apurar a falta de APPs (Áreas de Preservação Permanente) e os eventos de turvamento dos rios”. 

Como toda paisagem, a Serra da Bodoquena tem muito o que contar. A História Natural – medida em milhões de anos – nos mostra uma região geológica especial, formada por rochas calcárias que se dissolvem lentamente e conferem a transparência das águas, cenário da vasta biodiversidade. Como contraponto, a História Humana – relatada em séculos e décadas – revela contradições que vão do encantamento com a beleza das paisagens à ganância da ocupação abusiva. Capítulos recentes dessa história desnudam a ocupação do solo de modo a não respeitar limites da Lei e do bom-senso. Mapeia a cobiça de alguns, com a cumplicidade míope de parte do poder público.  

Geologia, ambientes e espécies, sabemos, são dinâmicos. Ecossistemas surgem e se perdem ao longo do tempo. O problema é que os ambientes estão sendo alterados em uma velocidade tamanha que não damos conta de conter os impactos. Rios que há milênios mantinham sua dinâmica natural, agora são afetados com a mudança da paisagem radicalmente imposta pelo homem. 

Não é de hoje que a Serra da Bodoquena se lança como elemento definidor da paisagem desses confins do Brasil. Mais de 500 milhões de anos esculpiram ambientes majestosos – como a Gruta do Lago Azul, o Abismo Anhumas e o Rio Olho d´Água – e permitiram que, nas últimas décadas, fosse criado um modelo que é referência mundial para o turismo sustentável

A comunidade local – formada por alguns fazendeiros, empresários, guias e moradores – soube explorar de maneira a gerar uma excepcional cadeia produtiva baseada no turismo. Apenas em 2017, aproximadamente 210 mil turistas visitaram Bonito e região, gerando R$ 305 milhões para a economia local. Não é pouco, especialmente considerando uma cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, dos quais 7 mil moradores estão envolvidos com o turismo.

Piraputanga, Brycon hilari, alimenta-se de frutos da mata ciliar.
Peixes frugívoros podem atuar como dispersores das sementes e, assim,
contribuir na regeneração das matas ciliares dos rios da Serra da Bodoquena. 
Foto: José Sabino/Projeto Peixes de Bonito

Mesmo que peixes não tenham o carisma nem a popularidade de animais como araras-azuis, tamanduás-bandeira e onças-pintadas, em Bonito a fauna aquática é a estrela. Quem flutua nos rios cristalinos da região mergulha numa experiência transformadora. Do leito dos rios e nascentes, as águas brotam como que em movimentos hipnóticos e a transparência revela uma infinidade de formas e cores. Em meio a essa vivência, rios deixam de ser apenas locais para retirada de água e depósito de dejetos. Subvertem nosso imaginário: águas viram ecossistemas vivos, repletos de biodiversidade.

Em defesa desses ambientes, surgiu recentemente um vigoroso movimento que revela a preocupação e o desejo da comunidade pela conservação dos ecossistemas aquáticos da Serra da Bodoquena. Como os conquistadores do passado, buscam prosperidade, mas agora baseada em novos valores. Tempo, homem e natureza se reencontram numa nova visão, à procura do bem coletivo e da sustentabilidade. 

Sociedades humanas apreciam bons exemplos. A região da Serra da Bodoquena era até pouco tempo um dos raros exemplos de coexistência de diferentes atividades, como agricultura, pecuária e ecoturismo. Todo esforço que for feito para retomada desse modelo será respeitável, notadamente com medidas que ordenem o uso da terra, incluído aí o zoneamento ecológico econômico – ZEE ou zoneamento ambiental. 

Cenários que serviram para a longa edificação da biodiversidade, não podem ser destruídos por valores individuais. No Brasil de hoje, extremado e blindado ao diálogo, o desejo da maioria é que a história seja contada pela nossa capacidade de coexistir.  

Num passado muito longínquo, bem antes da própria existência do Homo sapiens, alguns cascudos pigmentados
invadiram águas subterrâneas da Bodoquena. Como em qualquer espécie, variações individuais estavam presentes,
uns mais outros menos pigmentados. Com o passar de gerações, os mais bem adaptados à escuridão dos
rios subterrâneos sobreviveram no ambiente sombrio, até mesmo hostil. Progressivamente, perderam pigmentos e,
no limite da economia de energia, resistiram aqueles que sequer tinham olhos. Estamos falando dos cascudos albinos, 
Ancistrus formoso. Endêmicos e oficialmente listados como ameaçados de extinção, são testemunhos
da longa jornada da natureza para edificar os ecossistemas naturais de Bonito
Foto: José Sabino/Projeto Peixes de Bonito

José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

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