A atriz Alessandra Negrini desfila no Carnaval de SP com adereços e pinturas indígenas e é criticada

Atualizado, em 20/02/2020, com depoimento do cacique Raoni

Alessandra é rainha da bateria do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta há seis anos. Linda, causa sensação nas ruas por onde o bloco passa. Em 2018, se vestiu de Iemanjá para protestar contra a intolerância religiosa. No domingo passado, o bloco foi para as ruas e a atriz apareceu caracterizada como indígena.

Usando collant preto, caprichou nos acessórios – improvisou um cocar e outros enfeites coloridos com folhas e penas – e nas pinturas para dar o tom à sua presença, Sua escolha teve um objetivo estético, claro, mas também politico: protestar contra as ameaças do governo Bolsonaro, apoiando os povos indígenas .

Rapidamente, Alessandra virou assunto nas redes sociais, e não foi só com elogios. Muita gente a criticou por transformar símbolos da cultura indígena em fantasia de carnaval. Bom, então se é assim, não podemos nos fantasiar de árabe, de caipira, de holandesa, de mexicano, de cowboy, de odalisca, de bebê, de padre, de anjo, de diabo….

E desde quando folia e alegria não combinam com ativismo? Será que, por isso, Bolsonaro e seus seguidores vão continuar dizendo que os indígenas querem se integrar à nossa sociedade? Não! Eles querem ser ouvidos porque as ameaças promovidas por este governo são muito graves e colocam em risco a vida desses povos. Basta lembrar de uma: o Projeto de Lei enviado por Bolsonaro ao Congresso para legalizar a exploração econômica das terras indigenas, livremente, sem consultar esses povos.

Para reforçar o intuito da atriz, a seu lado desfilaram mulheres indígenas de etnias diversas, entre elas Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib), Célia Xakriabá, além de representantes dos Guarani Mbya, que enfrentam a construtora Tenda e a prefeitura de São Paulo contra uma obra gigantesca ao lado de suas terras, no Jaraguá, em São Paulo.

Benício Pitaguary, responsável pelas pinturas no corpo de Alessandra, era o único homem indígena. Alessandra fala dele em seu Instagram. A cantora Maria Gadu, conhecida por seu ativismo politico e pelas causas indígenas, também dividiu “a passarela” com eles.

À reportagem da Folha de São Paulo, a atriz disse que “a luta indígena é de todos” e que, por isso, “teve a ousadia de se vestir assim”. A Apib divide o mesmo pensamento e, ontem divulgou nota sobre a polêmica.

O texto ressaltou o perigoso momento em que vivem os povos indígenas. “Estamos vivendo a maior ofensiva em séculos de nossa história. Esta semana, está tramitando no Congresso uma MP que tenta regularizar a grilagem, o PL da Devastação quer impor a exploração das terras indígenas, um evangélico missionário num posto estratégico da FUNAI e pode provocar a extinção de povos não contatados”.

A organização também falou da importância de “união entre todos, e não atacar uma aliada por se juntar a nós em um protesto. Alessandra Negrini colocou seu corpo e sua voz a serviço de uma das causas mais urgentes. Fez uso de uma pintura feita por um artista indígena para visibilizar o nosso movimento. Sua construção foi cuidadosa e permanentemente dialógica, compreendendo que a luta indígena é coletiva“.

E terminou contextualizando o ativismo de Alessandra: “é ativista, além de artista, e faz parte do Movimento 342 Artes, que muito vem contribuindo com o movimento indígena. Esteve conosco em momentos fundamentais. Portanto, ela conta com o nosso respeito e agradecimento. E assim será, sempre quem estiver ao nosso lado”.

Banalização da cultura?

A socióloga indígena Avelin Buniacá, especialista em gestão de políticas públicas em gênero e raça, da etnia Kambiwá, de Pernambuco, que foi uma das vozes contrárias à fantasia de Alessandra. Ao blog Universa, do UOL, ela disse que “quando uma pessoa utiliza adereços indígenas como fantasia, está fazendo com que a gente retroceda décadas de mobilização contra o racismo aos povos indígenas”.

E disse que pessoas públicas devem fazer uso de sua visibilidade para fortalecer as diretrizes já existentes e não desvirtuá-las. No seu entender, usar trajes típicos os banaliza e não é uma boa forma de apoiar a causa. “Nossos trajes e tradições são sagrados. Permitir que sejam banalizados é o mesmo que jogar fora a luta antirracista. Existem mulheres que pagam com a própria vida para proteger suas tradições”.

E acrescenta: “Existe um documento da ONU Mulheres que fomenta o empoderamento de mulheres indígenas. Ele traz cinco eixos temáticos contra a nossa violação: redução da violência contra mulheres e meninas; empoderamento político; direito à terra e processos de retomada; direito à saúde, educação e segurança; e tradições e diálogos intergeracionais”.

O Cacique Raoni aprova

Compreendo seu posicionamento e também considero urgente a mobilização em outras esferas – como vem acontecendo -, mas não acredito no radicalismo.

Desde quando folia e alegria não combinam com mobilização? Os indígenas cantam e dançam para agradecer, para reverenciar, para a chuva, para o sol, para a vida… Os Guarani Mbya ocuparam o terreno invadido pela construtora Tenda – onde derrubou quase 500 arvores – e cantaram, tocaram seus tambores para reverenciar os espíritos tombados e para protestar.

Uma festa como a do Carnaval pode, sim, ser palco de manifestações politicas, culturais, pelos direitos humanos. Quanto mais falarmos dos povos indígenas, melhor. Veja o espaço que a notícia ocupou na imprensa!!!

E quando falamos de temas tão importantes, com alegria e bom humor, a mensagem pode reverberar em pessoas que, de outro modo – como em discursos de palanque, por exemplo -, não seriam conquistadas. Todas as manifestações são válidas.

Que o diga o Cacique Raoni!

Ele foi a Salvador, pela primeira vez, a convite do cantor e compositor Edu Casanova, para participar do Carnaval, e comentou a polêmica, destacando a alegria:

“Não é por mal quem está fazendo. Quem está fazendo, faz porque quer se enfeitar, adquirindo nossas vestimentas, nosso cocar, nossas coisas. Nós usamos objetos de vocês também, então é uma troca. Ele gosta e fica contente e alegre”, disse o intérprete, após o cacique se pronunciar sobre as vestimentas de índio no carnaval. 

Se um dos maiores líderes indígenas do Brasil aprova…

Fotos: Divulgação (retrato de Alessandra Negrini) e reprodução do Twitter

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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