A arquitetura da horta

alfaces plantadas na horta

Ainda estamos em pleno verão brasileiro, época de praia e muito calor. Mas para quem gosta de plantar e cuidar da horta, é preciso planejamento antecipado. Logo mais, com a chegada do outono, que tem sua data oficial nos calendários marcada para 20 de março, a paisagem dá os primeiros sinais de mudança. Pássaros migratórios começam a sobrevoar os céus. Os ventos se intensificam e facilitam a dispersão das sementes.

Se você quer que seu jardim esteja pronto para a nova estação, vale a pena fazer um estudo mais cuidadoso. Ao preparar o solo para o próximo plantio, procure registrar em um caderno uma espécie de desenho – como uma planta de uma casa -, indicando quais cultivos ocorreram no último ano e, se possível, nos anos anteriores.

Mapear os cultivos passados ajudará na decisão do que plantar, e além disso, onde plantar. rotação de culturas é muito importante na prevenção de doenças, estruturação do terreno e fertilidade do solo.

Anote as plantas que cresceram e foram colhidas em plena formação, e aquelas que foram deixadas para a produção de sementes. Seja criativo, use cores para cada família de plantas e anote os lugares que apresentaram menos produtividade nos canteiros do seu quintal.

Este registro será importante na hora da semeadura e do transplante porque deve-se evitar a repetição de cultivares de uma mesma família no mesmo lugar. Mas o que é mesmo uma família? Explico.

O que define uma família em horticultura é  a estrutura da flor: portanto, flores em formatos iguais, famílias iguais. Dou um exemplo para ficar mais claro: cenoura, salsa, coentro e salsão são da família das Umbrelíferas, flores dispostas em cachos em forma de guarda-chuva. Já couve, brócolis, couve-flor e rúcula são da família das Crucíferas, plantas que possuem flores de quatro pétalas.

O importante é você saber que todo cultivo imprime no solo uma substância, porque as plantas fazem trocas com ele para crescer, e estas substâncias perduram por um período determinado de forma que, se ocorrer a repetição do cultivo num mesmo lugar, sem que o solo tenha sido renovado, faltarão nutrientes para sua planta.

E o detalhe mais interessante é que as substâncias deixadas no solo podem favorecer ou prejudicar outras famílias, o que chamamos de alelopatia. Resumindo: existem plantas compatíveis e plantas incompatíveis, daí a importância de se planejar os plantios para que, na horta, exista uma rede de intercâmbio químico e físico entre as espécies.

Um outro exemplo: feijão e vagem, da família das leguminosas, trazem à tona, das profundezas do solo, o nitrogênio, elemento fertilizador das plantas. Por isso, o cultivo de leguminosas é muito utilizado como adubação verde, que nada mais é do que plantar e colher antes da florada, reincorporando o cultivo, seus talos, raízes e folhas no solo, trazendo para a superfície o nitrogênio e a matéria orgânica.

Este tipo de adubação também permite verificar se a irrigação está homogênea e se existem espécies invasoras ainda a serem retiradas. Permite também incorporar  minerais como o calcário e o manganês em etapas distintas da adubação.

Para as novas plantas, que começarão a ser cultivadas no outono, o solo deve ser preparado com antecedência. Caso você queira incorporar esterco ou húmus de minhoca, é importante fazer isso algumas semanas antes do plantio para que a liberação dos nutrientes ocorra a tempo para a chegada das novas plantas. Estas já deverão estar sendo semeadas e crescendo em suas sementeiras, que são bandejas com espaços, reduzidos para fazer a semeadura em local protegido de chuvas fortes e sol intenso, ou seja, em um berçário.

Durante este período de preparo para a estação que se aproxima, é importante vigiar a horta de inimigos naturais como lesmas. Elas são da família dos moluscos e gostam de comer folhas tenras nas horas em que o sol está baixo. Saem depois das chuvas da tarde e da madrugada, e apesar da conotação de lentidão que as caracteriza, desaparecem com muita rapidez se escondendo entre frestas, pedras, folhas secas e troncos. A melhor forma de identificá-las é por meio de seu rastro, uma fita prateada que se estende pelos caminhos do jardim.

Lesmas devoram mudas já formadas sem deixar vestígios e se reproduzem aos montes. Mas, para nossa alegria, podem ser facilmente capturadas e jogadas em outras redondezas. Existe uma armadilha muito eficaz, que consiste em enterrar, rente ao solo, um prato fundo cheio de cerveja. Elas lesmas serão atraídas pelo odor da levedura durante a noite e, pela manhã, você poderá retirá-las facilmente. As lesmas morrem ao entrar em contato com o sal, mas, como já comentei, esse método me parece muito cruel para um animalzinho que só quer comer e causa tanto fascínio entre as crianças.

Tudo pronto, então? Agora é hora de pegar papel e lápis e se transformar em um engenheiro ou arquiteto de seu jardim. Para começar, não esqueça do desenho bem colorido, mostrando que tipos de plantas serão cultivadas em cada espaço do seu quintal. Bom trabalho!

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Foto: domínio público/pixababy

Liliana Allodi

Geógrafa, paisagista, educadora ambiental e ilustradora científica. Começou a carreira em São Paulo como consultora paisagística. Durante 10 anos viveu no exterior (Austrália, Israel e USA) e neste último país, firmou suas habilidades para trabalhar com crianças. Atualmente dá aulas de horticultura para alunos do Ensino Fundamental, em Brasília. Também desenvolve projetos junto à Cia da Horta para centros de ensino, clubes e empresas.

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