70 religiosos são presos nos Estados Unidos por protestarem contra tratamento desumano dado a crianças imigrantes

Na semana passada, 18 de julho, freiras, padres e fiéis se reuniram no Salão Oval do prédio do Senado, no Capitólio, em Washington, para protestar contra as políticas de imigração implementadas pelo governo na fronteira e a detenção de crianças imigrantes que não possuem documentos. Elas são separadas dos pais quando chegam à fronteira do México com o país e mantidas sob custódia federal em condições desumanas, que já levaram algumas à morte.

Retratos das crianças que não resistiram a essas condições foram exibidos pelos manifestantes em ampliações grandes nas mãos ou penduradas em frente ao peito.

Promovido por inúmeras instituições religiosas, esse dia foi chamado por eles de Dia de Ação Católica pelas Crianças Imigrantes. Antes de entrar no Capitólio, no gramado externo,  os religiosos rezaram e ouviram testemunhos de migrantes aterrorizados com a ideia de perder seus filhos. Também leram mensagens de bispos presentes ao protesto, que foi considerado um ato de desobediência civil pelos próprios manifestantes.

No espaço amplo e de passagem do público e das pessoas que trabalham no Capitólio, os manifestantes entoaram orações. Cinco deles deitaram no chão para formar uma cruz. Todos entoavam cânticos e os nomes das crianças mortas: “Darlyn, Jakelin, Felipe, Juan, Wilmer, Carlos…”.

Pouco tempo depois, chegou a polícia, que filmou e fotografou alguns momentos e, em seguida, algemaram e levaram freiras, membros de paróquias e outros líderes religiosos, enquanto estes recitavam a Ave Maria. Acusação: obstrução de local público e manifestação ilegal. Assista ao vídeo (em inglês) que reproduzo no final deste post.

Uma das pessoas detidas é Patrícia M. Murphy, de 90 anos (foto que abre este post), freira católica de Chicago que há 13 anos luta pelos direitos dos imigrantes sem documentos e detidos, e organiza, todas as sextas-feiras, vigílias de oração em frente à agência de migração. Durante a manifestação, ela reiterou: “O tratamento dos migrantes deveria ofender todas as pessoas de fé”. Ela recebeu o apoio da Irmã Ann Scholz, da Conferência das Religiosas Superiores: “Estamos aqui porque o Evangelho nos obriga a agir e estamos indignadas com o horrível tratamento reservado às famílias, em particular, às crianças”.

Durante coletiva de imprensa, a Irmã Carol Zinn, diretora da Conferência de Liderança das Mulheres Religiosas, declarou que o melhor a fazer, primeiro, é unir crianças sem documentos e suas famílias e também em programas de cuidados administrados pela comunidade até possam ir ao tribunal de imigração. “O tratamento desumano dessas crianças, adotado em nosso nome deve parar! Pare o traumatismo, pare o isolamento, pare a detenção de crianças, pare, pare, pare!!”.

William Critchley-Menor, jovem estudioso jesuíta de Saint Louis, também foi preso e contou, em vídeo publicado no Twitter, que participou da manifestação para se solidarizar com as crianças imigrantes. “Estamos aqui porque o tratamento que estão recebendo é completamente incompatível e contrário à mensagem de Jesus Cristo e da Igreja Católica. O Santo Padre nos chamou para uma revolução de ternura, disse ele fazendo referência ao que disse Papa Francisco na palestra Porque o único futuro que vale a pena construir inclui todo mundo, no TED, em 2017 (reproduzo este vídeo no final deste post, também). E continuou: “O que está ocorrendo na fronteira sul com crianças sendo afastadas de suas famílias, sendo colocadas em campos de detenção sem saber quando serão libertadas é o oposto de ternura”.

O protesto ainda recebeu o apoio da Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas, a maior associação de religiosas do pais, e também da Conferência de Padres Superiores, que representa um terço dos padres católicos da América. Além disso, pelo menos sete bispos católicos publicaram declarações em favor da manifestação.

Mas não é de hoje que religiosos têm se posicionado contrários à situação de penúria a que são submetidos os refugiados que chegam ao país. A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, por exemplo, tem condenado as políticas de fronteira do governo Trump por meio de declarações públicas.

Nas últimas semanas, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA tem sido alvo de fortes críticas porque o fluxo de migrantes só aumenta e todos são detidos em instalações que, há muito tempo, ultrapassam sua capacidade. E a inadequação é total: oferecem alimentos mal preparados e sem higiene, falta de água e de saneamento. Muitas crianças estão doentes, gripadas, e, como estão afastadas dos adultos (pais, mães, tias tios, avós e avôs) – é muita perversão!!! -, as maiores são solicitadas a cuidar das menores. Pelas regras, elas não poderiam permanecer nessas instalações por mais de 72 horas, mas não é o que acontece. De todo modo, a transferência para abrigos e centros de detenção federais não melhora em nada sua situação.

Em Nova York, após a missa dominical celebrada em 14 de julho na Capela de Santa Francisca Cabrini, padroeira dos imigrantes, o cardeal Timothy M. Dolan denunciou o preconceito em relação aos refugiados e a quem pede asilo em um país que, por definição, “é nação de imigrantes“. Ele ressaltou, ainda, que existem “muitos lugares” onde “os refugiados são objeto de ódio e de malícia”.

Daniel Flores, bispo de Brownsville, no Texas, também se pronunciou a respeito, destacando as ameaças de deportação. “A separação dos pais de seus filhos é muito cruel para as famílias e crianças e ainda lhes negam a possibilidade de comparecer ao tribunal. Isso é reprovável”. E acrescentou, segundo o Vatican News: “As leis deveriam tratar famílias e crianças de maneira diferente de como são tratados os chefões do tráfico”.

E o mesmo site ainda destacou que Christopher Kerr, diretor executivo da Rede de Solidariedade Inaciana, contou que paróquias e grupos associados aos jesuítas no serviço aos migrantes, realizavam um trabalho de informação muito precioso: distribuíam manuais de emergência durante as missas em espanhol. Além disso, muitas paróquias declararam-se como ‘santuários’ para abrigar e garantir a segurança das famílias que pediam acolhida.

Luzes pela Liberdade

O protesto no Capitólio, na verdade, não foi o único apoiado e realizado por religiosos e fiéis no país. É talvez o mais contundente pela quantidade de pessoas detidas, mas várias cidades têm se manifestado desde 13 de julho.

As ações desses profissionais mobilizaram centenas de pessoas de todas as religiões, que juntas, pediram mudanças radicais nas leis de migração e o fim da detenção de migrantes em centros localizados na fronteira com o México. A imagem das crianças imigrantes indignaram a nação. Depois de separadas de suas famílias, são mantidas em espécies de gaiolas ou áreas cercadas, completamente insalubres.

No dia 15, dez manifestantes judeus também foram presos sob a acusação de terem entrado ilegalmente no hall da sede da agência para controle de fronteiras e da imigração, também em Washington. No mesmo dia, outros cem ativistas deram-se as mãos e criaram uma barreira humana na frente das portas e garagens do prédio para tentar interromper as “operações de limpeza” dos agentes da imigração.

A esse movimento de protestos que ainda não está organizado foi dado o nome de Luzes pela Liberdade, que tem, como símbolo, a Estátua da Liberdade, idealizada como ícone da acolhida de imigrantes nos Estados Unidos. Que contra-senso!

Agora, veja como foi a manifestação e a detenção dos religiosos no Capitólio. E também assista à mensagem do Papa Francisco na palestra do TED, há dois anos, no qual ele pediu “que a igualdade, a solidariedade e a ternura prevaleçam. “Ajudemo-nos uns aos outros, todos juntos, para lembrarmos que o ‘outro’ não é uma estatística, ou um número. Nós todos precisamos uns dos outros”.

Fontes: Huffington Post, Vatican News

Fotos: Divulgação/Vatican News e reprodução de vídeo e tweets

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta