50 ararinhas-azuis devem chegar ao Brasil até o final do ano

Investigação internacional questiona idoneidade de criador alemão que repatriará ararinhas-azuis ao Brasil

De volta pra casa! Finalmente. Ou melhor, ao seu habitat original.

O Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade – ICMBio anunciou hoje que foi definida a data da reintrodução de 50 ararinhas-azuis ao Brasil. Mais especificamente para a região de Curaça, na Bahia.

A repatriação das aves faz parte do Plano de Ação Nacional a Conservação da Ararinha-azul (PAN Ararinha-azul), coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave)/ICMBio, órgão do ministério do Meio Ambiente.

Em junho do ano passado, o governo federal já havia divulgado a assinatura de um acordo com a organização de conservação alemã, ACTP – Association for the Conservation of Threatened Parrots, um criadouro científico, onde estão atualmente 150 ararinhas-azuis, nascidas em cativeiro.

Outros 13 indivíduos se encontram no Brasil, no Criadouro Fazenda Cachoeira, em Minas Gerais, onde, inclusive, nasceram dois filhotinhos há alguns semanas (leia mais aqui).

Ao todo, só restam essas 163 ararinhas-azuis, vivendo em cativeiro, no mundo.

Ararinha-azul: extinta na natureza

Descrita pela primeira vez em 1832, a espécie (Cyanopsitta spixii) tem aproximadamente 57 cm, quase a metade do tamanho da arara-azul-grande, daí o seu nome “ararinha-azul”. Sua plumagem azul e seu canto estão entre suas mais marcantes características.

Sua beleza a fez se tornar vítima do tráfico ilegal de aves silvestres. Além disso, a destruição de seu habitat também provocou seu desaparecimento

Brasil trará 50 ararinhas-azuis da Europa para projeto de reintrodução da espécie na Caatinga

Hoje só restam no mundo 163 ararinhas-azuis, todas em cativeiro

De acordo com o anúncio feito hoje, pelo ICMBio, as ararinhas devem chegar, todas juntas, em voo fretado, em novembro. Elas serão levadas para o Centro de Reprodução e Reintrodução, em Curaça, construído para esse fim específico, e que fica localizado dentro de uma unidade de conservação.

“Até 2022 esperamos ter a ararinha-azul reintroduzida com sucesso na natureza”, disse Camile Lugarini, veterinária e pesquisadora do Cemave e responsável pelo Plano de Ação Nacional para Conservação da Ararinha-Azul, em entrevista ao Conexão Planeta, em 2018.

“Como as aves da vindas da Europa foram criadas em cativeiro, não é viável a soltura delas na natureza. Elas serão as genitoras de filhotes que serão cuidados no centro num primeiro momento e só então, depois, estes filhotes serão soltos na vida selvagem”, explicou.

Ela revelou ainda que as primeiras solturas serão feitas em conjunto com maracanãs (Primolius maracana), uma outra espécie, com hábitos semelhantes aos da ararinha – ambas, por exemplo, utilizam ocos de caraibeira (ipê-amarelo) para fazer seus ninhos. Antes de desaparecer, o último macho de ararinha-azul chegou a formar par com uma fêmea de maracanã.

“Acredito que muito do que estamos aprendendo com as maracanãs servirá para a ararinha-azul”, aposta Camile. “A criação das áreas protegidas era essencial, mas ainda é necessário arrumar a casa para receber as araras, ressalta. A paisagem é muito impactada pela criação de cabras, que interferem com a cobertura vegetal da qual as aves dependem para fazer seus ninhos e se alimentar”.

Suspeitas e denúncias

É ótima a notícia que já se tem uma data definida para a chegada das aves no Brasil.

Como relatamos aqui, no Conexão Planeta, através de uma série de reportagens, o proprietário do criador alemão ACTP está envolvido em sérias denúncias, que começaram a partir de uma reportagem investigativa do jornal britânico The Guardian (entenda melhor o caso neste link e nas demais matérias abaixo).

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Fotos: reprodução Facebook Association for the Conservation of Threatened Parrots e divulgação ICMBio

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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