3 milhões de atingidos, 700 mortes, centenas de desaparecidos e o início de um surto de cólera: saldo do ciclone Idai, na África

3 milhões de atingidos, 700 mortes, centenas de desaparecidos e cólera: saldo do ciclone na África

Quase duas semanas após a passagem do ciclone Idai, pela costa sudeste da África, em regiões de Moçambique, Malawi e Zimbábue, o cenário de devastação ainda é chocante. A cidade mais impactada foi Beira, onde viviam quase 500 mil pessoas, e que ficou totalmente arrasada.

Com estradas destruídas por causa das inundações e dos ventos fortíssimos, que chegaram a mais de 170 km por hora, equipes de resgate demoraram horas para chegar ao local. A população que conseguiu escapar da fúria do ciclone ficou em cima de árvores e telhados, aguardando socorro.

A catástrofe já é considerada a pior do Hemisfério Sul. Segundo dados das Nações Unidas, divulgados ontem (26/03), 700 mortes estão confirmadas, mas esse número deve aumentar mais porque ainda há centenas de desaparecidos. Cerca de 3 milhões de pessoas foram afetadas – a maioria perdeu suas casas e não tem acesso à água potável, alimentos e energia.

Casas, escolas e hospitais foram destruídos pela água e pelo vento

Uma das principais preocupações no momento é com a surgimento de epidemias, comuns depois de tragédias como esta. Os primeiros casos de cólera já foram diagnosticados. Os médicos mostram preocupação ainda com diarreia e doenças respiratórias.

Fila de pessoas buscando atendimento médico

A Organização Mundial de Saúde enviou à região 900 mil doses de vacina contra cólera. Várias organizações internacionais estão no local tentando ajudar a população, entre elas, a Médicos Sem Fronteiras (MSF).

“Dada a enorme quantidade de água que passou por Beira e o volume de danos causados, não é surpreendente que existam na cidade surtos de doenças transmitidas pela água, como a cólera”, confirmou Gert Verdonck, coordenador de emergências de MSF, em Beira.

Ainda segundo o médico, o ciclone causou danos significativos ao sistema de fornecimento de água da cidade, fazendo com que muitas pessoas não tenham acesso à água potável. “Isto significa que não há opção a não ser consumir água de poços contaminados, com algumas pessoas bebendo até água empoçada. Os centros de saúde apoiados por MSF receberam nos últimos dias centenas de pacientes com diarreia aquosa aguda”, relatou.

Em um pronunciamento, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres alertou que os países africanos precisam de muita ajuda. Muito mais do que foi enviado até agora. A situação é desesperadora. Estimativas apontam que, só nesses três primeiros meses, serão necessários mais de R$ 1 bilhão para o processo de ajuda humanitária e reconstrução das cidades. Entretanto, até o momento, as doações anunciadas não chegam a 2% desse valor.

Mudanças climáticas: os mais pobres são os mais vulneráveis

Antonio Guterres aproveitou a oportunidade para ressaltar que a passagem do ciclone devastador é mais um indício das consequências das mudanças climáticas, ignoradas por alguns países. “Não estamos ganhando esta corrida. No ritmo atual, a situação ficará cada vez pior. Precisamos reverter esta tendência e há uma responsabilidade gigantesca de líderes políticos internacionais em entender que é fundamental aumentar suas ambições para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”.

O secretário-geral destacou que eventos naturais como o Idai estão ficando cada vez mais frequentes e fortes. No ano passado, cientistas do clima também alertaram sobre o problema, conforme mostramos aqui, neste outro post.

O aumento da temperatura da água do oceano e da superfície terrestre, por exemplo, torna ainda mais severos desastres naturais, como furacões, ciclones e tufões.

Fala-se até que, a categoria das tempestades deverá ser reavaliada e poderemos presenciar um aumento dela. Atualmente o máximo é 5, com potência para destruir uma cidade inteira. Mas cientistas temem que em um futuro muito próximo, tempestades poderão chegar a uma categoria 6.

Estudos apontam, por exemplo, que nos dias de hoje há mais 5% ou 8% de vapor de água circulando pela atmosfera do que há uma década. Junte-se a isso a água mais quente do fundo dos oceanos, onde os furacões se formam, a fórmula para uma grande e devastadora tempestade está criada.

*Se você quiser, pode ajudar a população atingida na África, que tanto sofre, através de doações para o Médicos Sem Fronteiras. Veja mais informações neste link.

Fotos: Médicos Sem Fronteiras/Pablo Garrigos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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