2/3 dos maiores rios do planeta não correm mais livremente

2/3 dos maiores rios do planeta não correm mais livremente

Rios fornecem habitat crucial para um número sem fim de espécies animais e ajudam a sobrevivência das pessoas e da natureza em todo o mundo.

Todavia, nos últimos séculos, seus cursos têm sido alterados pelo ser humano. Muitos rios, que no passado corriam livremente, tiveram seus trajetos interrompidos pela construção de barragens, usinas hidrelétricas, estradas e outras construções feitas pelo homem.

Um estudo inédito, realizado por pesquisadores da Universidade de McGill, no Canadá, e publicado na renomada revista Nature, fez um mapa que revela as condições dos 246 maiores rios (com mais de 1 mil km de extensão) do planeta, como o Nilo, na África, e o Mississipi, nos Estados Unidos.

O levantamento demonstra que aproximadamente 2/3 deles não fluem mais livremente, comprometendo sua capacidade de realizar serviços ecossistêmicos vitais. Na Europa eles são praticamente inexistentes.

Atualmente há 60 mil barragens no mundo e outras 3.700 sendo construídas ou em fase de planejamento.

Rios saudáveis sustentam os estoques de peixes de água doce que melhoram a segurança alimentar para centenas de milhões de pessoas, fornecem sedimentos que mantêm deltas acima da elevação dos mares, mitigam o impacto de inundações e secas extremas, evitam a perda de infraestrutura e campos e sustentam uma grande biodiversidade . A interrupção da conectividade dos rios geralmente diminui ou até mesmo, elimina esses serviços ecossistêmicos críticos”, explicam os autores do artigo.

Os pesquisadores afirmam que apenas 37% desses rios – 21 dos 91 analisados – ainda mantêm seus cursos intactos, ou seja, possuem uma conexão direta com o oceano.

Alguns exemplos são os rios canadense Liard, no Ártico, e o Luangwa, na bacia do Congo, na Zâmbia. No Brasil, os pesquisadores citam a bacia Amazônica e ainda o rio Coco, um afluente do Araguaia, na região Centro-Oeste do país.

“Os rios do mundo formam uma rede intricada com ligações vitais à terra, à água subterrânea e à atmosfera”, afirma Günther Grill, pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Geografia da McGill e principal autor do estudo. “Os rios de fluxo livre são importantes para os seres humanos e o meio ambiente, mas o desenvolvimento econômico em todo o mundo os torna cada vez mais raros. Usando imagens de satélite e outros dados, nosso estudo examinou a extensão desses rios com mais detalhes do que nunca”.

Foi necessário mais de uma década de estudos, com análise de dados e de imagens áreas e de satélite de cerca de 12 milhões de km de cursos d’água para a elaboração do mapa abaixo.

Percebe-se acima, que os rios que ainda correm sem barreiras, representados por linhas azul escuras, estão localizados em áreas distantes, como na África Central, na Rússia, no Ártico e nos países amazônicos.

Ameaça da crise climática

Grill faz um alerta ainda sobre os efeitos das mudanças climáticas na saúde dos rios do planeta.

O aumento da temperatura já afeta os padrões de fluxo, a qualidade da água e a biodiversidade. Entretanto, à medida que os países rumam para economias de baixo carbono, o investimento em hidrelétricas aumenta, tornando-se ainda mais urgente a necessidade de desenvolver sistemas de energia que minimizem o impacto ambiental.

“Não se trata de eliminar o desenvolvimento, mas encontrar soluções inteligentes e sustentáveis em que rios e seres humanos possam co-existir “, ressalta Bernhard Lehner, outro autor do estudo. “Priorizar outras fontes de energia, como eólica e solar, otimizar as operações de barragens ou identificar melhores locais para sua construção podem ser parte dessas soluções”.

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Fotos: domínio público/pixabay (abertura), Neil Palmer (CIAT)/Creative Commons/Flickr e mapa WWF

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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