13 mil km em busca do verdadeiro amor?

Este é o simpático maçarico-de-colete (Calidris melanotos), uma corajosa ave migratória que, em alguns meses do ano, pode ser encontrada de passagem por quase todo o território brasileiro e que, apesar de medir cerca de 20 centímetros de comprimento, menos que um pombo-doméstico, embarca em uma das mais audaciosas jornadas em nome do “amor”.

Em estudo publicado este mês na renomada revista científica Nature – Breeding site sampling across the Arctic by individual males of a polygynous shorebird – cientistas do Instituto Max Planck de Ornitologia indicam que esta pequenina e adorável ave é protagonista de uma das maiores aventuras do reino animal.

Após atravessar meio mundo, em uma viagem da América do Sul até o Ártico, os maçaricos-de-colete machos chegam, finalmente, as suas áreas de reprodução e iniciam uma verdadeira maratona com o peculiar objetivo de acasalar com a maior quantidade possível de fêmeas.

Com o auxílio da tecnologia de telemetria via satélite (imagem abaixo), os pesquisadores conseguiram rastrear o deslocamento dessas aves e descobriram que, ao longo de toda a estação reprodutiva, elas não apenas competem pelas fêmeas em uma determinada área como, também – independente do sucesso reprodutivo -, seguem em frente e se deslocam incessantemente por todo o Ártico, sempre em busca de “um novo amor em cada porto”.

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A pesquisa revelou ainda que, em média, os machos voaram cerca de 3.021 km (maior que a distância entre São Paulo e Recife), se relacionando com fêmeas em até 24 áreas de reprodução diferentes, ao longo de praticamente todo o círculo Ártico. Umas das aves, em particular, chegou a se deslocar por impressionantes 13.045 km, em apenas quatro semanas.

Isso tudo quase sem pegar no sono – sério! -, literalmente. Em 2012, este mesmo time de cientistas publicou, na revista Science, o estudo Adaptive Sleep Loss in Polygynous Pectoral Sandpipers, revelando que os machos do maçarico-de-colete mais bem sucedidos no acasalamento são justamente aqueles que se mantêm ativos ou, em outras palavras, acordados durante, nada menos que, 95% do tempo de todo o período reprodutivo, que dura de quatro a seis semanas.

A pesquisa demonstrou que, quanto mais ativos os machos permanecem, maior sucesso é obtido na interação com as fêmeas e, consequentemente, maior será a probabilidade de este macho ser aceito por uma parceira. Afinal, são as fêmeas e não os machos que, escolhem seus parceiros. E estas são extremamente exigentes! Competindo por 24 horas com centenas de outros pretendentes, os machos do maçarico-de- colete precisam demonstrar força e beleza, além de habilidades como dança e canto. Por mais insistentes que os pequenos maçaricos sejam, independente do número de horas gastas em flertes e cortejos, somente os melhores são, por fim, escolhidos por uma fêmea.

Mas calma! Não se apresse em julgar os pequenos maçaricos-de-colete por adotarem um estilo de vida tão “liberal”. Diferente do que se pode imaginar, estas aves não são um bando de “conquistadoras baratos”! Muito pelo contrário: elas tão somente fazem parte de um grupo de espécies que encontrou na poligamia a estratégia evolutiva ideal para a manutenção de sua própria sobrevivência.

Curiosamente, segundo os autores da pesquisa, é graças a este singular comportamento exibido pelos machos do maçarico-de-colete, avessos aquilo que nós humanos poderíamos chamar de “relacionamento sério”, que as características genéticas da espécie são selecionadas e, se mantêm as mesmas em toda a população. Afinal, ao competir incansavelmente e trocar material genético ao se reproduzir com o maior número de fêmeas possível, os machos asseguram que a espécie se mantenha como uma só, geração após geração, em todo o globo.

Veja no vídeo, abaixo, as idas e vindas dos machos do maçarico-de-colete, durante todo o período reprodutivo.

Foto: Sandro Von Matter (destaque)

Pesquisador em ecologia e conservação, jornalista ambiental e fotógrafo de natureza, investiga questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, jornalista ambiental e fotógrafo de natureza, investiga questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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